Homens agachados

* «Um filósofo chinês disse que o sentimento da comiseração é o começo do amor», escreveu. Haverá quem leia isto e se revolte, pragmática e racional, como isto tivesse sido escrito por «homens que haviam nascido agachados e a quem só alguma, rara mulher, restituiria a altura. Mulher que os aceitasse sem paixão por piedade»... [Maria Ondina Braga]
* Nada como o Verão para a libido noticiosa se soltar. Pelo que se lê na imprensa, os portugueses não passaram a copular menos depressa, o país é que passou a ser penetrado mais facilmente... [A Revolta das Palavras].

Um vento de verão, madrugando domingo

* Trouxe-o de Lisboa, porque tinha começado a lê-lo e ando a ver se consigo continuar a leitura. É daqueles livros que se pode ir seguindo, como num passeio, sentando-nos de quando em vez, a descansar... [O Ser Fictício]

* O magistério de Leonardo Coimbra e o que tem de controverso projectou-se por vezes pelas mais inesperadas formas e nas mais invulgares circunstâncias... [Geometria do Abismo]

* Ao que leio, do Direito Europeu resulta que uma empresa que recuse a contratar um trabalhador fumador não viola as normas comunitárias... [A Revolta das Palavras]

Sábado de contrição

* Eu sei que é uma vergonha: mas detestava o Jorge Luís Borges só porque um desses arrogantes peralvilhos da nossa cultura, impante de opinião pomposa, o idolatrava. Só que nunca o tinha lido [A Janela do Ocaso].

* O Fisco decidiu afixar a lista dos devedores, o Tribunal de Contas afixará a dos credores. Penso que o objectivo é envergonhar quem deve [
A Revolta das Palavras].

Vivendo da escrita

Escrever é uma necessidade, uma urgência íntima, um modo de dizer. Às vezes, escrever é uma forma de ter companhia, outras vezes de a perder. Desde que descobri a blogoesfera fui deixando aqui, como se cadernos dispersos de apontamentos fossem, vários blogs. Alguns rasguei, de outros conservaram-me amigavelmente as folhas rasgadas. Escrevi, plural no tema, múltiplo no sujeito, uno na ilusão, a de que teria algo a dizer. Só que escrever é uma forma de se viver, a capacidade de passar do visto ao pensado, e de uma pessoa se exprimir legivelmente, mesmo contra aquilo que sente. Há umas semanas, como notaram alguns leitores, decidi suspender isto tudo, ao ter descoberto que sobrevivia pela escrita, em vez de viver. Confesso a fraqueza de não ter sido capaz me manter morto. Regresso, pois, cabisbaixo como um doente condenado à sua cura. Venho embrulhado num novo formato, como se num diário. Em cada dia, uma linha, uma frase remeterá para os blogs que já existem, para qualquer outro que possa vir a existir. As vantagens são só duas. O leitor, a haver leitor, percebe logo se houve escrita. O autor, e na verdade volta a haver autor, explica logo onde escreveu. Claro que, folha a folha um homem, na ânsia de viver, vai-se matando a escrever. No final, é mais ou menos como nos cemitérios: o coveiro, ao estender os olhos pelo campo raso, vê crescer o número dos que foi plantando. Raro é o dia em que não chega mais um.

O eu e os outros


Nasci em Malanje em Angola, no dia 25.03.49, porque os meus pais viviam ali. Mudei-me para Viseu em 1962, porque, entretanto, a guerra começou, logo pela zona onde vivíamos. Disse que queria estudar Direito, porque era um adolescente imaturo, que via filmes do Perry Mason. Não fui estudar Direito para Coimbra mas para Lisboa porque o meu pai adoeceu e mudámo-nos, na penúria, para aqui. Acabei o curso sem grande história, porque sempre fui um aluno sofrível. Terminei na Advocacia, porque a PIDE não me deixou ser juiz. Sou um descrente da vida política, porque a que vivi me desiludiu. Hoje gostaria de fazer uma só coisa: escrever. Tenho-o feito, em livros, nos jornais e agora na blogoesfera. O meu primeiro artigo aconteceu porque eu tinha 19 anos de juvenil entusiasmo. O meu último escrito surgirá quando eu tiver ainda não sei quantos anos de senil desespero. Deixo três filhos, na esperança que sejam senhores do seu destino, porque acredito no livre arbítrio, o dos outros.
P. S. Durante dezassete anos estive ligado ao ensino universitário. Na Universidade Clássica porque com o 25 de Abril se criara um vazio que era preciso remediar, no ensino privado, porque precisava de um emprego. Nunca me doutorei. Entusiasmei estudantes que são hoje juristas bem melhores do que eu. Se alguém se realiza assim, sou um homem realizado.