O conturbado ser

* Um homem chega a casa, moído de trabalho e sabe que o espera, na sua casa ou vindo da casa do vizinho o som de um jogo de futebol [A Posta Restante].

* Não sei como conseguirei conviver com este novo ser que se albergou no interior do meu conturbado viver... [A Posta Restante].

Rumo ao norte

Um destes dias vi o cineasta Fernando Lopes dizer em público, com candura, que a mãe fora «criada de servir» em Lisboa... [A Revolta das Palavras].

Irreconhecível

Andei a fazer obras de arrumação no blog e resolvi plantar aqui a minha cara, como parte da minha identidade. Eu sei que estou com rugas e envelhecido, e que devia ter ido ao barbeiro e que estou a olhar de lado e que apareço com um ar de quem anda a carpir pelos cantos todos os males do mundo e mais os meus. Mas é assim. Já fui outro, irreconhecível, mesmo. Tinha vinte anos de esperanças no mundo e em mim.

A maçã de Adão

* «Esta noite nã dí dormido nada!... – Atã perquém? – Os gatos andam p’aí com o janêro, era uma miada qu’a casa até tremia...» [A Janela do Ocaso].

* Dei com o livro num canto da estante, junto à cama, relido há tempos e ainda por devolver ao local de onde saíu. Agradeço-lhe este momento de contentamento... [A Revolta das Palavras].

O lápis de côr

Ouve-se aqui o amanhecer através do cantar dos pássaros e depois do gorgorejar da água das fontes... [A Janela do Ocaso].

Dia de estreia

* O Canibal, como devem saber, é jurista como tantos de nós, para além de artista no campo da música e do teatro, e escritor... [A Revolta das Palavras].

Dia da mãe

* A vida deveria ser assim também, iniciar-se com uma vírgula e sobretudo não ter ponto final... [A Janela do Ocaso].

* Na assistência, risos, a minha dúvida o saber a propósito de quê... [A Revolta das Palavras].

Com o mar à vista

* Gostava de saber a que aplica isto... [A Janela do Ocaso].

* Há um momento na vida em que uma pessoa olha para si e vê que houve um tempo que já se foi... [A Posta Restante].

Voz de arrais

* Zangado com o José Gomes Ferreira e comigo por isso irritado, encontro-o hoje, domingo de tarde, a prefaciar «O escritor confessa-se», que recomecei a ler, a cidade vazia de portugueses... [A Janela do Ocaso].

* Hoje pela hora do almoço encontrámo-nos. Ele educado e moderado, hesitante numa palavra mais rude, eu já à beira do desbragamento verbal, cansado de ser bem educado... [A Revolta das Palavras].

Manhã pelo Chiado

Hoje fui aos livros e vim para a casa com a alegria na forma de sacos em plástico atulhados de alfarrábios... [A Janela do Ocaso].

Provas a granel

Foi sobre isso que escrevi precisamente, numa lamúria biográfica de uma vida que me roubaram... [O Ser Fictício].

Um sono de morte

* No dia 25 de Abril eu estava na Quartel em Mafra, na especialidade de Armas Pesadas de Infantaria, mau grado a ironia de pesar quarenta e oito quilos... [A Revolta das Palavras].

* Cansado, esgotado e exausto, dia feriado é oportunidade para dormir impunemente, horas a fio... [A Janela do Ocaso].

* «Eis o Vademecum do Cosmonauta,uma autêntica jóia eis a verdadeira caixa de pandora!.. [A Posta Restante].

* Acho que descobri a fórmula: tenho mesmo de fazer as pazes com o Direito!.. [Cum Grano Salis].

* Fui então ler «O Testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo», aquele que escreveu: «sempre considerei a escola a enxada do pobre»... [O Ser Fictício].

Premonitório

O livro de versos chama-se «Comigo, versos de um solitário», o último dos poemas «A morte»... [A Janela do Ocaso].

Hoje vou a provas

Este fim de semana estive em Matozinhos, entre escritores e outros artistas. Foi um refrescamento amigável, ver quem são os que escrevem a escrita com que viajamos pelo mundo do sonho, do consolo e da fantasia. O encontro era precisamente dedicado à Literatura e Viagens [A Janela do Ocaso].

O cavaleiro da triste figura

O deprimido Vergílio Ferreira, quando escrevia a sua «Conta Corrente», irritava-se consigo mesmo por estar a escrevê-la, naquela forma de diário em que dava conta das suas insuficiências e inferioridades, o que o Eduardo Lourenço tanto lhe censurava.
No lírico José Gomes Ferreira surpreendi a patética confissão de achar uma vergonha ter sido o Luís Pacheco condenado, por difamação, a uma multa e ao mesmo tempo ele saber, por antecipação, que não iria contribuir com um chavo para o peditório que se estava a organizar para socorrer o que achava ser uma vítima do injusto «fascismo» cultural.
No bilioso Jorge de Sena escandalizei-me ao ver como ele hesitava vergonhosamente em assinar as listas do MUD, a oposição ao salazarismo, com medo de não ser incluído, por retaliação governamental, numa comitiva oficial que ia à Índia.
É por isso perigoso esceverem-se diários íntimos e ainda por cima publicá-los.
Correndo todos os riscos, mesmo o de passarem-se dias sem que eu venha aqui, descobri hoje que escrevo em «auto-punição». Disse-mo alguém que muito respeito. Talvez seja mesmo assim.
Por isso esta madrugada, fustigado pela vida, atado ao pelourinho do dever, a lamber, esgotado, as feridas da alma, não escrevo! Se o fizesse, passava, ridículo, pela triste figura de ter pena de mim. Ora para vergonhas já chega...

E agora José?

Da próxima vez que o primeiro-ministro vier com aquele ar empertigado que o caracteriza como um ademane de importância, exigir «rigor» e «uma «cultura de qualidade e de exigência» aos portugueses, permitam-me que me largue a rir dele e a chorar pelo país... [A Revolta das Palavras].