A mão estendida

Se olhar em redor para as memórias que ficaram desse tempo adolescente em Viseu recordo como de conhecimento pessoal três nomes: o Eurico Dias, o Luís Miranda Rocha e a Isabel Santos. Tudo o mais esvaiu-se. 
Sim, sei que existiam e que nos falávamos e talvez nos julgássemos amigos, tantos outros, no Colégio de Santo Agostinho, no Liceu Nacional. Mas aquela intimidade da presença, das horas usadas em conversa, daquele nada vagueante parecer o tudo que haveria para viver e sempre aquela ânsia que as paredes do nosso confinamento se alargassem a perseguir-nos, nunca se lhes estendeu a todos esses que se me lerem me julgarão ingrato e me condenarão como arrogante. Mas saibam que me defendo com a confissão da humilhação.
Se tentar perscrutar no tempo onde iniciou esse tempo de reclusão talvez o situe mais longe, na Malanje onde vivi até aos doze anos e onde deixei apenas dois nomes como rasto de presença.
Quantos amigos ou conhecidos entraram na minha casa? Os dedos de uma mão chegam para contar. Quantas vezes entrei eu na casa dessas pessoas? Talvez os dedos de ambas as mãos sobejem para o dizer.
Do Eurico Dias lembro-me dos longos passeios, a esmo, pelas ruas e vielas, atravessando de par em par a cidade, espraiando-nos até, como num jardim, pelo cemitério, indiferentes aos mortos, ele taciturno, eu a fazer as despesas da conversa. 
Da Isabel Santos, os bailes domésticos em que, sob a vigilância dos pais, um grupo precário de adolescentes a borbulhar, ia afluindo, cada um trazendo a sua parte para a merenda, entre croquetes e bebidas gaseificadas, que o mais um gira-discos fazia, cumprindo a sua função, cada um em busca do seu possível par, ansiando o dançar agarrados o suficiente e suficientemente separados, a mão a travar o ímpeto do corpo, e depois o regresso a casa, a horas certas, os sentimentos confundidos pelas sensações.
Lembro, enfim, o Luís de Miranda Rocha. Mais velho que nós. Pela sua mão aprendi a ler, soube o que era a cultura. Seguia-o até junto do edifício da Biblioteca, onde parava, vinda de Lisboa, a camioneta da carreira, a que trazia os jornais de Lisboa. Com as poucas moedas que me tilintavam no bolso, porque nunca soube o que era uma mesada ou uma semanada, ou regularidades que tais, atrevia-me a comprar o Diário de Lisboa, uma vez por outra o República, aquele para ler nas entrelinhas, este por militância na sua breve prosa.
Um dia soube que tinha morrido. Prestei-lhe aqui a possível expressão do que lhe devo, tanto quanto as palavras o conseguem. Como no seu poema, «as palavras não existem para além da nossa voz». A sua companhia ensinou-me a estar só. Escreveu um comovido livro de poemas chamado O Corpo e o Muro. Dedicou-o a «M», um segredo do seu coração.
Lembro. Estendo a mão ao que poderia ter sido e na presença do vazio, lanço-a a tudo quanto puder ser. Viverei a vida por viver, vivendo-a!

Abravezes


Na altura não sabia que, em 1932, ali tinha vivido clandestinamente o escritor Aquilino Ribeiro. A Igreja estava nesses anos, em que ali vivi, tal qual esta fotografia de 1929. Junto a ela uma frondosa árvore, um banco de jardim e, nele, solitário, de porte digno, frequentemente um velho militar reformado, tomando da sombra o fresco. Eu era infantil demais para dele saber o nome. Lembro sim da tasca do «Zé da Bucha» e das casas que o Manuel da Adega construía e ia vendendo, como aquela em que nós vivíamos, quase ao lado do cemitério. Já lá não está um palheiro onde por esmola vivia um mendigo tuberculoso, cuja tosse se ouvia como facadas no coração do nosso bem estar, desfazendo-lhe os pulmões e a minha consciência moral de menino "africanista". Mais abaixo o supermercado "Spar", da "Cilinha", a que passeava um cão cujas patas traseiras haviam sido esmagadas por um atropelamento e que ela empunhava, conduzindo-o, para a volta necessária, como a um cortador de relva. E o sanatório, mais adiante, estrada por onde passeava a minha Mãe e o seu filho, o único homem, garoto ainda, que havia naquela solitária casa, aguardando o regresso do meu pai, sabendo dele pelo correio aéreo, cartas e envelopes escritos em papel de seda para, mais leve, não encarecerem o custo postal. E antes dela, a estrada romana, incerta, bordejando silvas cujas amoras tinham de bom a delícia do sabor e de mau os desarranjos que causavam, intestinais.
Se tenho saudades? Não tenho. Talvez tenha sido aí que me nasceu na alma o sentimento da melancolia e da não pertença. Um dia um telegrama chegou: «seu marido muito mal». Vinha de África. O menino africanista iria aprender a fazer-se homem. Em Lisboa, terra de asilo, onde fiquei.

Quare?

Eu era apenas um miúdo, imaturo, arrancado a Angola onde vivera em clausura e quase sem amigos, excepção tristonha àquele mundo de porta aberta que caracterizava a vivência dos trópicos. Fora parar a Viseu porque era dali a família do meu pai, que eu não conhecia e que ele mal reconhecia, tendo emigrado para África aos vinte anos e regressado à Metrópole quarenta anos depois. Além disso vínhamos, a minha mãe e eu, com fama de "africanistas", forma de de supor no meio que seríamos endinheirados através da exploração negreira. Perdido numa cidade que não era minha, feito cavaleiro andante de sua mãe, um rapazinho de dezasseis anos chegava enfim ao Liceu Nacional de Viseu, depois da peregrinação pelo Colégio de Santo Agostinho.
Que sabia eu do mundo que por ali habitava, discreto, subterrâneo, e mesmo o da cultura oficial? Alguém me conseguiu fazer compreender a importância do Eugénio Aresta e do Augusto Saraiva na Filosofia? Di Simões Gomes na Cultura Clássica? Não tinha quem, com uma única excepção chamada Luís de Miranda Rocha. Falarei dele um dia e das saudades que me roem a alma incompleta pela sua prematura morte.
Pressenti, sim, naquele professor de Literatura, alguém diferente. Talvez porque mais novo do que o habitual, sobretudo porque mais arrojado do que se esperava. 
Arriscou dizer-nos, sem que eu entendesse bem, que não estava autorizado  pelo Reitor a recomendar a História da Literatura do Óscar Lopes e do António José Saraiva mas que era a melhor a que existia. Dava aulas como quem conversa com amigos. Arriscou, sobretudo, pegar naqueles adolescentes tão diferenciados como éramos e fazer-nos ler, mesmo os mais obtusos. Pela sua mão descobri o que era a Biblioteca do Liceu. Por causa dele passei a não perder a paragem da carrinha da Fundação Gulbenkian quando, ela como Biblioteca Itinerante, me trazia aquele mundo por haver.
Um dia, numa aula, surpreendi-o descobrindo que havia mais remos do que remadores num dos autos da barca de Gil Vicente, não sei dali retirando que peregrina conclusão. Líamos a peça representando-a. 
No final foi ele que me surpreendeu a mim. Aos poucos vim a saber o seu genial valor, a sua bondade, o seu empenho. Tarde demais, porém. 
Morreu jovem. Hoje olho para mim e para esse tempo perdido e para aquilo de que não fui capaz e sinto uma vergonha imensa por já não ser possível bastar-me com o arrependimento de uma culpa de que nem tenho com quem repartir os remorsos. 
Esta noite o Eduardo Pinto trouxe-me uma grata memória na forma de um blog que o refere e uma fotografia. Está aqui. Olho para a imagem e para a clareira que significa a minha ausência quanto a tudo isso. Na altura eu era apenas um miúdo desterrado em Abravezes, sem eira nem beira, formando-me a esmo. Anos depois tudo isso pesa como uma acusação. O que faz de nós a inconsciência.
Alberto Osório Mateus, meu professor. Numa aula marcou-me como trabalho escrever uma carta como se fosse o Francisco Manuel de Melo. Teria de ter o estilo, o vocabulário e, não mais o esqueci, terminar com a sacramental fórmula: «Quare? [Porquê?]». 
Eis a pergunta da minha agonia esta noite, olhando para o tempo ido e para o tempo perdido: porquê? Porquê?

O Cónego Barreiros

A fotografia tem no verso uma legenda: «Ao primo José Barreiros Pina do Amaral, como prova de estima e lembrança da sua passagem pelo meu Colégio. Colégio da Via Sacra 14-7-52 Pe. António Barreiros».
O destinatário foi o meu pai, que usava o nome, como se à espanhola, com o designativo materno no final antecedido pelo do lado paterno. 
Órfão, o Cónego Barreiros deu-lhe estudos gratuitos no que foi uma referência estudantil em Viseu: o Seminário-Colégio da Via Sacra. Ali conviveu com António de Oliveira Salazar, então prefeito. Com a diferença: este dedicava-se, férreo, ao estudo, chegando a ponto de em pleno Inverno, depois de uma jornada de trabalho, descalçar-se para que os pés numa bacia de água gelada o impedissem de adormecer; o meu pai queria namorar e vida solta. Partiria para São Tomé, dali para Cabinda, enfim em Malanje, onde eu nasci em 1949. Quando a foto chegou até nós eu teria três anos. Fui hoje ao seu encontro.

O espírito do lugar

Estudei aqui, vindo do "Colégio do Terêncio", meu padrinho, como contei. Era um seminário e também um colégio. Estudavam no colégio os filhos dos mais afortunados e eu tive a oportunidade de naquela altura ser filho numa família que afortunara. Começaram do nada. E ficámos sem nada. No começo quando eu não existia minha mãe chegou a fazer ajour "para fora", porque o infortúnio abateu-se sobre a nossa casa. Mais tarde, comigo já na Faculdade, ter-se-ia que agarrar a modestíssimos empregos para poder haver comida em casa. Pelo meio tivemos do mundo as coisas boas que o mundo tem. 
Talvez por isso tenha ficado como marca o misticismo destes missionários, tão longe do execrável cura que mais tarde conheceria e que da Igreja afugenta porque da Igreja é o mau exemplo, a fraternidade destes missionários, a austeridade moral destes missionários. Um dia surgi nas aulas de pulseira de ouro e anel. Prendas de avó. E fio ao pescoço. Olhando-me com ar severo, o Padre Ferreira lançou-me na cara: «vens assim para apoucar os que não têm?».
Nunca mais esqueci. Nunca mais uma peça de ouro. Agora a aliança apenas, símbolo da dedicação.
Se o mundo se divide, de um lado os materialistas, eu estou além. Mesmo dos materialistas históricos e dos dialécticos. Devo-o a este começo, a esta lição, a este lugar.

O ver e o olhar

O chapéu é o forro de um chapéu, a gola alçada a de um pijama de flanela. Não consigo reconstituir a idade e talvez nem me reconheça no interior. Talvez o modo de ver pelo modo de olhar.
Fui encontrá-la à fotografia esta noite num álbum que trouxe como se tentasse encontrar desse tempo um vestígio.
É essa a nossa biografia essencial, o pequeno instante que define sem ter de dizer. O olhar sem o que se vê. Como se num aborrecimento feito nostalgia. Ou uma tristeza que ficou mais do que as alegrias e o tempo do riso.

A ânsia de colo

Tento por vezes lembrar-me da mais remota memória que ainda conservo. Mas já não me entendo comigo quanto a ser uma verdadeira lembrança ou um resíduo do que os outros contaram que sucedeu. 
Não me recordo, por exemplo, de ter andado ao colo. Uma falha destas explica muita coisa na vida de um homem, sobretudo os trágicos insucessos na busca de carinho. 
No entanto, essa verdade esquecida existiu como realidade que só uma fotografia hoje conserva. Esta. 
Dizem-me que por essa altura um surto de paralisia infantil, entre matar e estropiar uma série de crianças, lançou o pânico nas famílias do local onde nasci. Escapei talvez porque tivesse um mundo inteiro para calcorrear. E sobretudo para que a vida se encarregasse de me pôr à prova quanto a ser impossível inverter o que aqui ficou como circunstância: seres tu filho, a encontrares na inocência do teu ser, um regaço que dê, enfim, colo a tua mãe, recebendo-a agora tu, regressada ela à primeira infância, com todos os incómodos, os da impossibilidade de falar, às necessidades incontroladas.
É isto o que dói nos álbuns de amarelecidas fotografias quando, acusadoras no seu mutismo nos perguntam: darás tu o que te deram tal qual o recebeste, fecharás com honra e sem remorso o ciclo da vida de quem te deu vida, sem relutância, sem olhar a horas, a conveniências, a comodidades, a repugnâncias? 
Darás tu colo a quem te deu colo?

O soldado cadete n.º 153053/70

Rememorando o que foi a infância e a juventude, creio que fui educado militarmente. Em nome da regra segundo a qual «vida de cama, vida de lama», a alvorada lá em casa era pelas sete, quando não era antes. A ideia de ficar a preguiçar durante a manhã, salvo estando doente - e as doenças só existiam quando a febre ultrapassava os 39º - era quase pecaminosa. À noite, depois do recolher, a luz acendia-se às escondidas.
O culto do dever, as horas certas para se estar à mesa, o ter o quarto limpo como uma caserna, marcavam o tom. E, claro, o viver sob inspecção permanente, sob a ameaça da repreensão disciplinar. 
De tal forma assim foi que quando, com o surgir da puberdade ele se soltou, o espírito de liberdade, o território que eu tinha para lhe oferecer foi o da vida solitária. Muito poucos eram os amigos e a irem a minha casa praticamente nenhum. Aprendi a viver na rua. Ao regressar ao aquartelamento fardava-me de solidão.
Um dia o serviço militar obrigatório chamou-me. Fui recenseado e deram-me um número, o 153053/70. Apurado para «todo e qualquer serviço militar».
Esperaram para eu terminar o curso e ainda para fazer o estágio de advocacia, como se a tropa precisasse do meu ser jurídico. Acabaria, porém, em Armas Pesadas de Infantaria, apesar do desconcerto da minha magreza.
Quando entrei na Porta de Armas já tinha tido o meu tempo doméstico de vida castrense.
A foto ilustra o momento grave em que numa imensa fila, com o número ao pescoço, quais presidiários, éramos fotografados em manada. Depois recortavam um a um, daqueles corpos, o que individualizava o mancebo, a carne para canhão. Foi no Quartel em Mafra, era Janeiro e fazia frio. Foi ali que aprendi a primeira regra, a do «Vossa Senhoria, dá licença, meu tenente?». Ainda hoje ficou como lição de moral: manda quem sabe obedecer. Mesmo na rebeldia. Obedecemos a um dever, o da consciência moral, como quem jura bandeira.

O tentador precipício

Hoje foi arrasado, como muitas coisas se arrasam e varrem dos locais. Perduram na memória, enquanto ela se não confunde, em álbuns amarelecidos enquanto os herdeiros os não jogam no lixo. 
Foi neste Colégio que me matricularam, para fazer o quarto o quinto ano do Liceu. Vindo de Angola, de um estabelecimento privado de ensino, não sei em nome de que lei só poderia entrar no ensino oficial ao iniciar o 3.º ciclo. 
A Avenida onde se situava chamava-se 28 de Maio, era e deveria ter sido sempre Alberto Sampaio, mas para mim era e foi a Avenida do Caroço por causa das cerejeiras que os antigos ainda recordavam plantadas na faixa que dividia a rua ao meio. 
O prédio do Santo Agostinho tinha sido um hotel, o Hotel Portugal.Mas quando ali cheguei parecia-me imemorialmente o que era. É assim quando se é novo, tudo nos parece ter sido sempre o que é, tudo precisa de deixar de ser como está.
A fotografia foi tirada do lugar onde do lado direito desembocava uma íngreme rampa, ao topo da qual era a casa da família Santos Costa, que havia sido ministro da Guerra num Governo de Salazar.
Foi escorregando por ela, em dias de gelo, que, imitando outros, sentado num caixote de papelão a desfazer-se, em improvisado kart, desemboquei, em louca correria, a deslizar, tremendo de frio e de emoção, mesmo a meio da Avenida, onde me esperava não o aplauso pela ousadia tremenda, mas um "chapadão" castigador do Doutor Oliveira, professor de Geografia e disciplinador daquela chusma de "corrécios" e outros que disso se aproximavam em mau comportamento, que éramos, afinal, a maioria de nós. 
Claro que a bofetada tentava, a seu modo, ensinar-me a defender-me de mim próprio. Talvez devesse ter levado mais umas quantas, não naquela altura, mas ao longo de uma vida que ali se iniciava, ao passar inconsciente dos treze para os catorze anos. Então, pareceu-me uma injustiça invejosa do mundo dos adultos para aquele heroísmo infantil.

O casarão

O Colégio pertencia ao meu padrinho, o Dr. Terêncio, de quem já falei aqui. Era um imenso casarão. Ou talvez nem tanto, mas a memória infantil torna sempre maiores os espaços, mais altos os tectos, mais funda a distância. 
Curioso o que recordo desse mundo infantil. Não consigo lembrar um nome sequer, salvo o da professora por causa da qual os meus pais me tiraram dali. Como eu não conseguia ler números com muitos zeros, prenúncio do que a vida me reservaria em matéria de incompreensão ante a riqueza económica, lembrou-se de um método em cuja brutalidade confiava: o ensinar-me batendo. 
Um dia apareci em casa com o ombro negro de sangue pisado pelas reguadas com as quais se tentara que eu soubesse distinguir os milhares das dezenas de milhares, as centenas de milhares, os milhões e por aí em diante.
A partir daí inscreveram-me no Colégio de São José, que também era Seminário. Um outro mundo abria-se.
Esqueci quase tudo desse mundo primitivo, excepto o mapa de geografia e os intervalos das aulas apenas pelos gelados de leite de que uma vizinha em frente fazia economia doméstica, sorvetes feitos como cubos nas cuvettes do congelador, um palito como base de sustentação. Custariam pouco mais que «uma quinhenta». Eram naquela altura o paraíso na terra no intervalo das tentativas ferozes de suporem que eu tinha inteligência, à pancada.
Encontrei-a esta noite aqui, esbatida, a memória da minha escola primária, o Colégio de Veríssimo Sarmento e com ela o casarão de uma infância quase sem amigos o nascer de uma reclusão interior.

Gogomobile

A pequena criatura sou eu. A sombra que sobre o automóvel se projecta, a do meu pai, orgulhoso do seu menino, a máquina fotográfica, em baquelite, de que só me recordo as minúsculas fotografias que tirava. A viatura um Gogomobile, que só mais tarde viria a saber ser da fábrica BMW. Recordo sim que tinha as mudanças eléctricas no tabelier.
A matrícula começava por "A", por ser emitida em Angola.
Fora uma oferta do meu pai a minha mãe. Naquele tempo a vida permitia-lhe isso. Uns anos depois o tecto cair-nos-ia em cima. Ficou desse mundo a pálida fotografia. E memórias tristes por causa desse oferta. Não interessam para o que aqui escrevo. 
A verdade de uma vida é o que dela importa, mescla de memória e de esquecimento. Talvez um dia se escreva da História do Mundo Omitido, como a do meu pequeno mundo, a deste pequeno carro.

Os "assimilados"

Chegou a Malanje, tal como nesta foto se mostra quando chegou a Luanda. Era ministro do Ultramar de Oliveira Salazar. Este, sabê-lo-ia mais tarde quando os estudos me permitiram entender o que nem pressentia, tinha-o ido buscar para o Governo do Estado Novo aos sectores oposicionistas. 
A sua viagem a Angola traduzia um esforço de autonomia controlada, o fim do "Estatuto dos Indígenas", dos "assimilados", dos "brancos de segunda". Adriano Moreira era o homem que servia.
As colónias transformavam-se apressadamente em "províncias ultramarinas", à solução dos massacres, como os da Baixa de Cassange, sucedia uma política "psico-social". Tarde demais.
Na altura eu nada entendia no que dizia respeito a este repintar das fachadas do sistema. Lembro-me sim quando o jovem governante, num igual aceno, extasiado ante a espontânea manifestação local, não se apercebia, ou tentava não se aperceber, de que nas filas de trás do ministerial cortejo seguiam camiões apinhados de nativos, num deles a berrarem «Benfica! Benfica», como se enganados nos vivas, e em outra um "cipaio" empunhando as senhas do almoço à borla que restabeleceria a energia gasta em tanta grita! 

Ecos da Via Sacra

Já se percebeu que esta narrativa não segue nenhuma ordem cronológica, mas a do fluir dos sentimentos. Não é uma biografia, mas um passeio pelo interior de uma vida. 
Com o início da guerra, em 1961, percebo hoje em que medida a minha família se dividiu em duas partes. A minha família eram em casa o pai e a mãe. Ele nascera em 1898, fora para África com vinte e poucos anos, como quem se exila voluntariamente, primeiro para São Tomé, onde o seu pai falecera, depois para Cabinda, enfim para Malanje, onde nasci. África era já a sua terra de adopção. Ela, nascida em 1922, fora para Angola para acompanhar os pais, forçada, e sentia-o como um degredo. O regresso à Metrópole foi uma libertação, sem imaginar que viria a ser um aprisionamento.
Viemos morar para Viseu. Lugar para mim desconhecido, terra natal de meu pai, sobrinho neto do Cónego Barreiros, que lhe dera, pois que órfão, estudos gratuitos no Seminário Colégio da Via Sacra, que fundara em 1908. Ali meu pai conheceu e foi condiscípulo de António de Oliveira Salazar. Contou-me quantas vezes o vira, depois de um dia de trabalho como prefeito do Colégio, a retirar-se, para estudar, tirando cuidadosamente as meias e arregaçando as calças, para, em pleno Inverno, meter os pés numa bacia de água gelada e assim não adormecer. Alguém me trouxe há algo tempo um recorte do jornal "Ecos da Via Sacra" em que a escola agradecia «ao senhor Salazar» o que «tem feito pelos nossos rapazes».
Ante o que ouvi em casa e ao ler o jornal uma pessoa entende como tudo o que é nasce afinal do nada.
Ao passar há algum tempo por Fundo de Vila, em Penalva do Castelo (Castendo), concelho de Mangualde, e ao ver tantas ruas com o nome de Barreiros, senti como que a humildade de ser apenas a actualidade temporária de um nome que me antecedeu e que lego aos que me sucederem para que esse nada possa ser no fim tudo quanto há.
José Barreiros Pina do Amaral, filho de José de Pina e de Maria do Amaral. Faleceu tinha eu vinte anos, tinha-me morrido, porém, uns anos antes, porque a vida não é o tempo da existência mas a da essência do que se vive.

Vidas desfolhadas, livros desfeitos

Não sei que livros havia em minha casa, mas havia muitos livros. Quando viajámos para a Metrópole, a minha mãe e eu, porque a guerra começara, e deixámos o meu pai para que, arrumada a vida, se juntasse a nós, e juntou-se sim para morrer, sei que venderem imensos desses livros, a esmo, ao melhor preço, a peso. Mesmo assim alguns vieram, restos amarelecidos de uma vida desfolhada, desirmanados, sem nexo. Foram-se as "Memórias de Trabalhos da Minha Vida" do general Norton de Matos, que depois vi em alfarrabistas a preço de ouro, a Pearl Buck, o Somerseth Maugham, o Pitigrili, tantos Joaquim Paço d'Arcos, tantos portugueses com quem me reencontraria na "Selecta Literária" do 6º e 7º ano do Liceu, os estudos etnográfico do Redinha. Não sei porque não trouxemos esses, pois que se encaixotaram os do Armando Ferreira e do Olavo d'Eça Leal, "A Tragédia Sexual de Leon Tolstoi", e "As riquezas dos Jesuítas". 
Talvez tenha sido aí que começou esta parte da minha biografia que são bibliotecas abandonadas deixadas para trás de vidas desfeitas.
Hoje reencontro-me com o local onde me fizeram nascer em velhas livrarias e descubro que havia em Malanje quem escrevesse, mas eu era demasiado miúdo para me aperceber, como o Mena Abrantes no teatro, o Cerveira Baptista na poesia. Como se nunca tivessem existido, eles e eu.

O limiar da dor

Foi na Rua Vasco de Gama que nasci. Em casa, que era como se nascia. Hoje encontrei-me com esta notícia aqui, de Março deste ano de 2011: «no município sede, a Rua Vasco da Gama, a primeira desde que esta vila ascendeu a categoria de cidade há 79 anos, cortando a norte o bairro do Ritondo, há mais de 3 anos que está intransitável» (...) «Há tempos atrás foi a melhor rua de Malanje, mas não estão a ver nessa situação da rua, até o nome desapareceu. Isso já está há muito tempo, mais ou menos, praticamente 3 anos assim pessimamente».
Nunca mais voltei a Angola. Não mais voltarei a Angola. Tenho os meus avós maternos ali sepultados. Dizem que até a laje de mármore que tinha o nome deles gravado nas suas campas foi roubada. Prefiro guardar as recordações e dolorosas mas não ter de enfrentar mais dor. Há um limite para o que conseguimos sofrer.
Perguntei há dias como estava essa que é a cidade onde me deram o ser. «Bem», responderam-me, «está bem», que é a forma delicada de nos porem à porta, a nós e às nossas indesejadas preocupações.
Nasci ali. Como já disse, ao cimo da rua era a Quitanda, o mercado local, ao fundo, ao fundo, a caminho do bairro do Ritondo, a linha do caminho de ferro. A meio ficava a Casa Santos Pinto. Do lado de cá da rua era uma corrente de casas que a minha mãe ia comprando, velhas e a cair e arrendava, depois de as mandar reparar. Fazia-o com o dinheiro que amealhavam, o meu pai com o seu escritório de solicitador, ela trabalhando nele. Lembro-me disso com tanta nitidez como se tivesse sucedido agora neste local onde escrevo, o meu pai a entregar-lhe o que iam ganhando e a pedir-lhe, «Ernestina», alguns angolares, quando precisava. 
Ficou-me aí, nesse modo simples e doméstico de ser, a ânsia por uma família. Éramos sozinhos e talvez fosse essa a nossa individualidade. Levei uma vida inteira perseguindo esse anseio. Hoje a minha rua já nem nome tem. E eu vivo numa casa e a devê-la ao banco.

[a foto é cortesia deste blog aqui]

O aprumado "lusito"

Era obrigatório e era aos sábados. O instrutor era um oficial branco do Quartel da Companhia Indígena, carregado de ideias patrióticas. Eu era dos mais miúdos de todos e sobretudo o mais pequeno. 
Nem sei o bem o que fazíamos naquelas tardes de chatice, pois poucas recordações me ficaram. Lembro sim da farda, camisa verde com o emblema das quinas, o bivaque dentro do qual sobejava na altura uma farta cabeleira, calção de caqui, apertado com um cinto, que quase dava duas voltas ao meu tronco magrinho, com um "S" à frente, que tanto me foi explicado ser de "Salazar", como de "Saber Servir". Mais tarde houve quem dissesse ser a ideia aproximar a coisa às "SS", mas duvido que, franzino e de farta melena a saltar do bivaque, as meias a caírem-me pelas pernas abaixo, apesar de um elástico que lhes dava uma volta ao cano e me deixa uma verdugão nas pernas, tipos da minha laia pudessem, por sonhos que fossem, ser equiparados ao pesadelo dessa tropa de elite nazi, que davam a vida pelo Reich dos Mil Anos e pelo seu Führer, matando e exterminando em nome da mística da pureza racial e do espaço vital, com maior apetite pelos judeus que não tinham certificado de arianeidade.
Fui encontrar esta foto na caixa de sapatos das recordações. Eis-me, fardado da Mocidade Portuguesa. A mesma em cuja criação esteve o general Humberto Delgado.
Naquele dia estávamos no campo de aviação de Malanje, formados em castelo, eu eterno "lusito", à espera do general Kaúzla de Arriaga, o mais à direita dos generais portugueses, que visitava o local. E que depois em Moçambique teria como ajudante de campo o senhor major Tomé. Sim, o mesmo que seria da UDP.
Um dia, na instrução, respondendo à chamada, sei lá porque maluqueira, respondi "presunto", em vez de "presente". Levei uma chapada do alferes instrutor. A partir daí é um buraco negro na memória.
Quando saí para o colégio dos padres, para iniciar o liceu, não havia lá a "bufa". E os meus sábados foram, enfim, libertos da Pátria, por obra de Deus, para me dedicar à Família. Só por isso aqueles padres entraram-me no coração.

O mancebo

Moro hoje em frente ao fatídico local. Era ali o DRM, o Distrito de Recrutamento e Mobilização, onde se ia saber do recenseamento e pedir o adiamento da incorporação e essas coisas que eram necessárias para se estar em dia com os deveres castrenses. O interlocutor que me cabia era o «sargento Batalha», o rosto visível de uma realidade cada vez mais próxima, o Exército Português.
Eu tinha sido apurado «para todo e qualquer serviço militar», e comigo aqueles a quem faltava um dedo para accionarem o gatilho, que disparassem com os dedos que sobejassem, e os que tinham pé chato mas não tinham "cunha" e tudo e as botas, que já se rapava no fundo para encontrar «carne para canhão».
A "inspecção" essa foi num quartel pelas zona de Oeiras. Não sei porque ironia, já despidos, confinaram-nos numa sala de aulas, onde carteiras escolares, de tampo inclinado, davam um ar de infantilidade ao ambiente, que a ardósia e os mapas de geografia e os atlas do corpo humano, enforcados na parede, completavam. 
Imagina-se que meia hora depois, aquela horda de homens nus, estava tão infantil quanto o local  circundante. Entre as brejeirices que não tardaram a fazer-se ouvir e os efeitos gerados por um que se lembrara de levar uma revista adequada a fazer entrar em acção a mecânica dos fluídos masculinos e suas consequências elevatórias, houve de tudo.
Na hora da chamada, um a um, já o respeito mudo deslaçara, cumpriu-se, em fila indiana, o bando em pelota, o ritual do acto, com a sua liturgia e eis a minha vez de ir à «craveira», um metro e setenta e dois, «balança», quarenta e oito quilos «há-de engordar!», tudo fechado em segundos pelo «pum pum-pum» de duas carimbadelas num impresso, e está feito que o coronel médico nem se dignava levantar os olhos, «apurado!».
Foi o e assim sucessivamente até ter aparecido o mais virilmente afectado pela provocante revista, que andara, entretanto de mão em mão, com as rotundidades femininas fotografadas em grande plano, que a coisa ia então dando para o torno «que se andam para aqui a brincar, vão ver o que é bom para a tosse, que isto não é nenhum casa de putas, ou o que é pensam?» e ninguém pensava nada. Atrapalhado, o pobre rapaz, sem saber como aquietar aquele inesperado prolongamento de si, sumiu-se entre risinhos e piadas já de caserna para os fundos do anonimato, à procura das calças e dos sapatos naquele amontoado de roupa em que no final um tinha dois sapatos do pé direito e as cuecas de outro nunca mais apareceram.
Passada a prova em que todos venciam, ao regressar a casa, nesse dia, a Amadora tinha, sem o saber, mais um mancebo, o 153053/70, soldadinho  de chumbo, que aprenderia mais tarde a «ordem unida» e com ela o «firme sentido ombro arma apresentar arma, descansar!», tudo de modo declamado, sincopadas as palavras, prolongados os seus finais, voz de comando, ao toque de requinta e ao som de tambor, «pronto, meu Capitão», «Vossa Senhoria dá licença?». «Destroçar!»
Ao olhar para a fotografia, os óculos sem aro, o ar de betinho bem compostinho, que nem sei onde o inventei, ganho a certeza que a guerra estava perdida.

Um Soldado Desconhecido


Que guerra era aquela para os meus doze anos quando ela começou? Que motivos tinha eu para a compreender, razões para justificar como é que, de repente, o ódio andava à solta pelas ruas? 
Eu, menino branco, filho de e neto de colonos, para quem África já era a sua terra, eu com dois irmãos mulatos, nascidos de meu pai, que praticamente não conheci e face a quem tenho hoje como que um pudor vergonhoso de me encontrar por não saber sequer o que lhes dizer? Eu para quem a Angola dos meninos brancos, dos "riscas-risca" e das "rebitas" e das "caçadas", não era a minha terra, nem a dos meninos negros porque sentia que não era negro sem imaginar sequer o que era ser-se europeu. Eu, para quem a Metrópole foi um sabor adquirido, mas que por decreto governamental era considerado um "branco de segunda"?
Da guerra que nos cercava, com o seu cortejo de horrores, ficou apenas o medo nocturno, o acordar a meio do sono espavorido e ir abraçar-me a uma espingarda 22 Long que o meu pai comprara, mais seiscentas balas e uma pistola, armando-se como tantos brancos se armaram, defendendo-se uns de uma matança, imaginando outros uma matança. 
O medo ao ligar para o cinema, a partir do n.º 95 - que era o do telefone da nossa casa - e pedir à dona Manuela - que era a menina da bilheteira - que chamasse os meus pais, porque já não aguentava mais estar sozinho em casa, escondido, espavorido por tudo o que via relatado nas conversas dos mais velhos, num pesadelo sonâmbulo de que me entrasse pela casa adentro, de catana em riste, de "canhangulo" apontado, seja do que fosse de primitivo mas mortífero alguém e me escolhesse a mim por acaso para sacrifício pelos seus antepassados.
E como tudo se debatia numa convulsão contraditória na minha cabeça.
Mas não era aquela a terra da convivência pacífica do meu pai e o seu escritório de solicitador, mais a Emíila, escriturária, negra, negríssima, que ainda hoje me chama «o nosso filho» quando de mim fala à minha mãe, assim ela a pudesse já ouvir. Do Norberto, mulato, rapaz das voltas, que me deixava andar de bicicleta às escondidas do meu pai? Do David, o carpinteiro que fazia todos os biscates de que uma casa precisava? Do Leonel, meu meio-irmão que andou comigo ao colo, casado com a sua Saudade?
Era, mas era a mesma Angola em que no Cinema do Senhor Pratas ainda houve um dístico que anunciava «é proibida a entrada a indígenas» e por isso o Director de Fazenda viu a sua entrada recusada por um porteiro zeloso, e, orgulhoso, se recusou agora ele a entrar, mau grado as desculpas do próprio Pratas, que «indígenas» eram os outros «os matumbos» os «não assimilados», «o senhor doutor desculpe». 
A mesma Angola onde eu ouvia os gritos lancinantes dos negros que fugiam ao "contrato" - pelo qual eram arrebanhados nas suas terras por negreiros e levados para trabalharem com prazo fixo obrigatório para longe dos seus e quantos criados domésticos tivemos desses - e em quem os "cipaios", polícias negros ao serviço submisso da nossa Administração Colonial, arreavam palmatoadas até as mãos lhes rebentarem de sangue como castigo pela ousadia da fuga.
A mesma Angola de tanta companhia majestática, da Diamang ali ao lado, e tanto branco pobre, que chegavam à busca de melhor vida, fato de cotim, mala de papelão, vindos com "carta de chamada" na terceira classe do "Niassa", do "Uíge", a mesma Angola onde o meu avô, serralheiro mecânico, dizia que para ver um branco nos 400 quilómetros em redor tinha de se olhar ao espelho e eu pensava por isso que deveríamos ser boas pessoas para todos eles quando não cortavam-nos as goelas e jogavam-nos no mato, à mercê da bicharada. 
A mesma, a mesmíssima Angola, em que o "soba" nativo castigava quem lhe roubava a mulher atando-o e à adúltera, irmãos de raça, num buraco para que fossem comidos vivos, dias a fio, por hordas de quissonde, essa formiga carnívora cuja ferroada era um ganir de dor e no fim ficavam só os ossos.
Sei que quando a minha vez chegou, já na Metrópole, já licenciado em Direito, estágio feito de advocacia, de ir para a tropa, por ter beneficiado de uma «espera» para que ganhasse tal habilitação, e me coube, não aquilo por que me esperaram, mas, mau grado os meus ridículos 48 quilos, Armas Pesadas de Infantaria  - «onde se mata sem saber quem, e se é morto sem saber por quem», no dizer alarve do nosso instrutor - e já com prometido embarque para a Guiné, decidi: «não vou».
E, no entanto, não tinha para onde ir. Não tinha partido, nem grupo, nem pai já, nem dinheiro, era um pobre diabo que tinha passado meia faculdade mal alimentado e a comer miséria disfarçada, a meias com a mãe, porque Angola nos fora madrasta e ficou lá tudo sem descolonização, antes da descolonização, dois ermos sozinhos e aos tombos da sorte. 
Não sabia, na minha cobardia de desertor, como se chegava onde quer que fosse, mas atravessaria a fronteira a pé, corajosamente, nem que fosse para a terra de sítio nenhum.
Achava que Salazar mentia quando propalava que defendíamos Angola contra os imperialismos e a História mostrou que quem estava enganado era eu. Achava que os soldados iam matar negros que já estavam mortos na sua dignidade humana por um regime que os libertou da escravatura tornando-os serviçais e, afinal, olho hoje para o regime de Luanda e a História insulta-me nas minhas certezas.
Para o Governo de Lisboa, seria negar-se a si próprio não ter defendido as colónias. Para os soldados que em nome de um dever, de uma ambição ou de uma inércia, deram a vida por essa defesa, a Pátria deve-lhes um silêncio compungido e pesaroso. Ante uma cruz funerária de um soldado morto, não há política que se discuta, ajoelhamos pelos nossos e pelos deles.
Um dia insultaram o António Lobo Antunes por escrever sobre uma guerra que não viveu. Um soldado não conta a sua história. Cada um deles, os que sobreviveram ou escaparam à linha da frente, é, mesmo sem o saber, um Soldado Desconhecido.

O medíocre medo

Um dia chegaria a guerra. Primeiro sob a forma de belgas espavoridos, que fugiam do Congo, os seus carros apinhados com tudo quanto podiam trazer, desorientados, a caminho de salvarem a pele. Não sei porque passaram por Malanje. Talvez, suponho hoje, por causa da companhia belga do algodão, a Cotonang, onde o meu avô trabalhava.
Sei que foi a primeira vez eu, um miúdo com onze anos, habituado à vivência pacífica da minha rua, que era o único mundo de todos os mundos e mais a escola, senti o que era o "poder branco" a escaqueirar-se como uma jarra de porcelana que das mãos se soltasse. E o espanto de todos pela fragilidade de um sistema que eu nunca tinha percebido que era colonial, porque na escola se estudavam os afluentes do rio Tejo, as linhas ferroviárias do Douro, e coisas como Dadrá e Ngar Aveli, o Afonso de Albuquerque, os Bijagós e o rio Rovuma que nascia no Largo do Niassa.
Mas ei-los, os que até ali dominavam e mandavam sobre o indigenato e seu trabalho, a escaparam-se como coelhos, assustadiços aos primeiros tiros.
Em casa supunha-se, porém, que aquilo não era connosco. Porque os belgas eram uns negreiros e nós tínhamos mestiçado. Porque aquela era a nossa terra, e o Congo belga tinha sido uma coutada do Rei Leopoldo.
Pela hora do jantar ouvia-se, no entanto, Rádio Brazzaville, o local do sinal marcado com um risquinho a tinta no quadrante do rádio a válvulas, em onda curta e um ambiente pesado, sombrio, cerrava a cara dos mais velhos.
Um dia fomos convocados para ir para o Campo de Aviação, um pedaço de terra batida, sem asfalto, mais um casinhoto de fazia de hangar de uma pequena avioneta ocasional. Colocados em oblíquo à pista os automóveis, os seus faróis iluminavam-na para que, naquele inquieto anoitecer, ele pudesse aterrar entre o troar medonho dos seus motores a hélice e a nuvem de pó quando as rodas tocaram o chão. Tubular, ovóide, estranho pássaro, o avião, um Nord Atlas, murmurava-se, vinha carregado de armamento para o Quartel.
Foi então o tempo da revolta da Baixa do Cassanje o morticínio a que se seguiria o morticínio. A chegada dos Caçadores Especiais. 
Ainda hoje tenho estampado no interior da alma o medo, o horrível e medíocre medo. Quando ficava sozinho em casa. Quando, caindo sobre os telhados de zinco, as mangas, tudo pareciam estrondos de explosões. Dos faróis dos jeeps à noite. Do ladrar de uma metralhadora pesada no quartel. Do que se dizia no dia seguinte que tinha sucedido, o fruto negro, estraçalhado à bala, da caçada da noite anterior.  De quando soube que tinham arrancado os olhos a um "fubeiro" que trabalhara na loja do lado, por vingança ou já por coisa algum, saciada a raiva ancestral naquele ou em qualquer outro. 

A chegada do comboio

Naqueles anos de cinquenta, naquela cidade do planalto, local onde cruzaram pai e mãe e dali resultei eu, havia o ritual do depois de jantar. 
Dava-se uma volta pelo jardim, em redondel, os casais aparelhados, com filhos uns havendo filhos, a jurarem amores que dariam filhos mesmo os outros que de amores se ficavam pelas palavras. 
Cumprimentavam-se ali mais uma vez, depois de se terem visto, porventura já, naquele dia de que a noite dava agora o cerimonial de um baile e seu salão. 
Num dos topos do jardim ficava o Palácio do Comércio, local do Tribunal, no outro o Banco de Angola. Num dos lados desse quadrado solene, símbolo de todo o poder, ei-lo, o Palácio do Governo, no outro a Estação do Caminho de Ferro. E era para aqui que tudo convergia.
O ritual social iniciava-se pelo passeio público, ritmado, o braço dado, a mão dada, o braço por cima do ombro, cada um conforme o seu estado, estatuto ou condição, e prolongava-se pelas paragens intermitentes dos pares em volteio, e os cumprimentos, normalmente de cabeça e andando, ou meia volta de conversa banal e no retorno ao passo, feitas as cortesias, o murmúrio da ratice sobre o vestido daquela, que era o mesmo, ou sobre os sapatos daquele, por engraxar.
Era então a hora de chegada do comboio vindo de Luanda, quatrocentos quilómetros de via férrea por entre pó barroso, que fazia com que se chegasse ao destino como índios peles-vermelhas. Saídos, em formigueiro, ei-los os exaustos viajantes e suas malas, e a aguardá-los os que os aguardavam por ter de ser e os que os esperavam por não terem mais que fazer. Havia a automotora, mas nos labirintos da minha memória perdeu-se-me a hora da chegada.
Com o desembarque, a ratice privada tinha então uma nova oportunidade pública de se exercer, mais ampla agora, mais variada, mais carregada de novidades. 
Eram os que tinham ido a Luanda, os que regressavam da Metrópole, os que arribavam pela primeira vez à colónia, funcionários, colonos, desconhecidos, amigos.
Naquela cidade, naquele jardim, naquelas noites eu era um miúdo passeado pela mão de seus pais. Às vezes deixavam-me cabriolar em liberdade, um pouco à frente, guardado à vista. O normal, porém, era nós sermos aquele círculo fechado, do mundo resguardados e ao resto indiferentes. 
Entre a austeridade severa de uma mãe e a bonomia animada de um pai, ia-me fazendo gente. Hoje que escrevo guardo ainda o cheiro desse jardim, os canteiros alinhados e o regresso a casa, ensonado de ter convivido com um mundo que viajava.
Dormia então um sono inocente feito de inconsciência. Subterrânea, a guerra, formava-se sobre a dor e os ressentimentos.