Onde nos leva a memória?

Onde nos leva a memória? A fotografia e o registo do que julgamos lembrar, a ilusão de se ter perpetuado. A diferença é que me lembro dos nomes, a Bernardita Cochat, que viria a ter uma morte horrorosa, o Vasconcelos, o mesmo que, electricista, "passava filmes" no cinema do Senhor Prat, e o meu pai, a esquerda, um dos fundadores do Rádio Clube de Malanje. Há só um nome que me escapa. Miúdo, fazia dali recreio. Sonhador, capaz de pensar criando, o meu pai deu voz àquele emissor, o CRE6RE. Tudo aquilo era primitivo, feito de penúria de meios, de amadorismo, de sonho. Corria o ano de 1953. Eu tinha quatro anos, o meu pai cinquenta e cinco. Onde nos leva a memória quando tudo foi?

O Castro & Irmão

Uma página dedicada a Malanje traz-me este momento. Era a loja de modas por excelência. Chegou-me à memória em dois registos, o doce e o amargo, ingredientes com que a vida é temperada. Doce, porque miúdo, meu pai me levava até lá, ficando à porta à conversa, local de encontros ocasionais, e eu, por ali vadiante, à espera de ser hora de regressar ao lar, sobretudo quando o ambiente lá por casa estava de "trovoada" emocional e a ida «para um giro» era uma forma de deixar o tempo arrumar a desordem dos sentimentos. Mas houve também, em 1966, o registo amargo, terem chegado dali contas para pagar de compras que por si eram a demonstração do infortúnio e da noção do que, afinal, tudo nos tinha acabado. Foram pagas, com lágrimas, mas honradas. Depois terá dado nisto.
Talvez neste exacto momento a miséria da depredação tenha dado azo à estonteante riqueza. Sobre os escombros das memórias a Natureza faz nascer flores, sobre o que o homem destruíu, interesses.

O sr. Salazar...

Mundo pequeno. Em 1909 o Colégio Via Sacra, em Viseu, publicava o seu relatório, firmado pelo Director e proprietário, o Padre António Barreiros, de que tenho cópia graças à generosidade do Luís Loureiro.
O meu pai, que nasceu em 1898 [!], frequentá-lo-ia por generosa ajuda daquele que assim lhe garantiu estudos, órfão que era. 
No breve documento agradecia o seu signatário ao seu «companheiro de trabalho», o «sr. Salazar». Era ali prefeito, ganhando pelo trabalho o direito a estudar.
A vida e a política dariam a cada um o seu destino. Pelos vinte anos o meu pai expatriava-se em São Tomé, depois em Cabinda, mais tarde em Malanje, onde nasci. Em 1909 o mundo era, porém, assim.

A mediania feita resultado

Fui toda a vida um aluno medíocre. A única vez em que me excedi foi quanto tive de ensinar. Talvez o mito sobreviva a esta realidade e a aparência se tenha tornado verdade.Sou a mediania tornada resultado.
Houve um tempo em que atribui tudo isso às circunstâncias. Não era propriamente consolo, mas dava para, voltando sobre os próprios passos, apagar as pegadas do erro.
Esta noite encontrei a caderneta escolar do 6º ano do Liceu. Nessa altura não era propriamente feliz. Mas tinha do contentamento o suficiente para poder ser melhor. Lia dispersamente o que encontrava e não vinha a propósito. Quanto ao que era comum e obrigatório uma qualquer rebeldia dava neste efeito. 
Se pudesse ter sido uma revolta teria hoje a dignidade de uma recusa. Mas eu era então infantil demais para me entender e não tinha ninguém que me demonstrasse quem eu era.
A tanto se resume uma vida: ao remorso de não ter sabido fazer o que não fiz de mim.

Era uma vez um gato

Não sei de onde veio a ideia que afirmei, sem hesitar, na cadeira do meu barbeiro que usei barba crescida desde que me nasceu barba ou talvez um pouco depois. Descobri esta noite a demonstração do contrário. Nasceu-me então uma questão filosófico-pilosa: tê-la cortado entretanto? Ou será que tudo começou por este farfalhudo e ante-nietzscheano bigode antes de progredir rosto abaixo?
Depois é a questão simbólica do gato e do cachimbo. Quanto a esta tudo começou com Mayflower ao ter visto o ar de radiante contentamento do primeiro fumador. Decidi-me, suportando o ardor da língua e o seu inchaço, maleita de iniciado.  Ainda hoje guardo, em relicário, uma colecção, muitos fumados até ao esgotamento do fornilho.
Quando se fuma cachimbo o bom odor é para os outros, o próprio não o sente. Não é que isso signifique altruísmo, mas é como se a alma, expirada, exalasse ao mundo a sua substância.
Posto isto e voltando à cadeira do meu barbeiro, que é feito da farta cabeleira? Algures, julgo que paulatinamente, a vida foi-se encarregando dela. Ido o revestimento ficou o miolo ou o que dele resta..

Nasce-se duas vezes

De facto, fazendo as contas e tendo nascido a 25 de Março, faz sentido o que ouvi, primeiro murmurado porque era miúdo demais para saber "dessas coisas", depois já em alta voz porque já tinha crescido e já fazia também "essas coisas" das quais me saíram três filhos: fui concebido na noite de Santo António.
Ontem dei comigo a explicar que fazia afinal anos no dia de aniversário - por ter sido o dia do parto - do jovem Pedro, a festejar as suas quinze Primaveras, usando a imagem das flores e do ovo da galinha para ser entendido pela sua miúda irmã.
A verdade é que se nasce, afinal, duas vezes: a primeira quando nos produzem, naquele encontro milagroso de um pai e uma mãe e um acaso fértil, a segunda quando, em esforço e agonia angustiosa de incerteza, vemos a luz do dia.
Acaso curioso: aquela que me deu o ser, foi baptizada in extremis porque em vias de falecer, bebé ainda, levada à Igreja de Oliveirinha por uma chorosa Mãe. Foi madrinha uma camponesa que a Fortuna fez passar na estrada e Padrinho, por sugestão salvífica do Capelão que lhe administrou o Sacramento, o Santo António.
Chamo-me António por causa disso. José por ser o nome do meu avô paterno. Morreu em São Tomé, esmagado por uma árvore.

Ser ou não ser

A ideia de se poder ser ninguém no imenso anfiteatro 1 da Faculdade de Direito de Lisboa surgiu-me quando na primeira aula de Direito Constitucional o professor Marcelo Caetano chamava os alunos, um a um, para que, do lugar, dissessem o nome e de onde vinham. Aqui e além o nome de família - cuja importância só vim a perceber mais tarde - ecoava-lhe no espírito alguma luz e perguntava se era filho de ou de algum modo familiar relativamente a. O que marcava alguma inicial diferença.
No meu caso o nome passou despercebido. A verdade é que nem eu estava certo quanto ao Rebelo da Silva, vindo do lado da Mãe, pertencer a alguma linhagem que me entroncasse na família do escritor que foi ministro e que antes dos sessenta anos, quando morreu, tinha escrito para cima de cinquenta livros, nem do Barreiros me lembraria de invocar o nome do Cónego em cujo Seminário-Colégio meu pai, seu sobrinho neto, estudara, condiscípulo de Oliveira Salazar.
Talvez, nessa cerimónia de apresentação de credenciais, tal me tivesse valido para qualquer coisa neste País que é, do ponto de vista da sua genealogia moral, uma Monarquia entregue a feitores republicanos. Mas não: José António bastava-me. José por ser o nome do meu avô, António por ter sido obra de uma seguramente divertida noite de Santo António.

Os despojos do dia

Não interessa que esta narrativa não respeite a cronologia, porque as nossas memórias são turbilhão de sentimentos sem outra ordem que não seja a do vinco que nos deixou na alma.
Para fazer o primeiro ano da Faculdade de Direito vim para Lisboa. Estava previsto que estudaria em Coimbra por vivermos em Viseu, mas a vida encarregou-se de nos surpreender.
Cheguei sozinho à "capital do Império". Ainda havia do Império a sonolência, ido o sonho, não chegada ainda a saudade após o pesadelo.
Hospedei-me na Pensão Universal, ali na Avenida Duque de Loulé, logo após a ponte que passa sobre a Rua de Santa Marta. Ali, porque tinha instruções para ali ficar, porque o meu Pai tinha ali ficado uma vez.
Só que não havia quarto para mim, estava tudo cheio. Improvisaram-me então dormida na sala de estar. Só podia deitar-me depois de já não haver hóspedes que ali quisessem ficar a olhar para a televisão. Nem sei se telefonei para Angola, onde a minha Mãe recolhia o que tinha ficado das nossas coisas e do que já só era o meu Pai, para dar conta desta circunstância, afinal uma pálida incomodidade na angústia financeira em que se tinha tornado a nossa vida.
Lembro que comprei, sim, o Manual de Direito Constitucional do professor Marcello Caetano e mais os fascículos da História do Direito Português, da História do Direito Romano e da Introdução ao Estudo do Direito. E um lápis daqueles que eram simultâneamente vermelho e azul.
E comecei a ler e a sublinhar, a vaga náusea de aquilo não ter a ver comigo. Tal como dormia depois de todos se terem ido deitar, a vida surgia-me como só passível de ser vida depois de todos a terem vivido, disponíveis, enfim os sobejos.Tinha dezassete anos numa Pátria estrangeira.

A mão estendida

Se olhar em redor para as memórias que ficaram desse tempo adolescente em Viseu recordo como de conhecimento pessoal três nomes: o Eurico Dias, o Luís Miranda Rocha e a Isabel Santos. Tudo o mais esvaiu-se. 
Sim, sei que existiam e que nos falávamos e talvez nos julgássemos amigos, tantos outros, no Colégio de Santo Agostinho, no Liceu Nacional. Mas aquela intimidade da presença, das horas usadas em conversa, daquele nada vagueante parecer o tudo que haveria para viver e sempre aquela ânsia que as paredes do nosso confinamento se alargassem a perseguir-nos, nunca se lhes estendeu a todos esses que se me lerem me julgarão ingrato e me condenarão como arrogante. Mas saibam que me defendo com a confissão da humilhação.
Se tentar perscrutar no tempo onde iniciou esse tempo de reclusão talvez o situe mais longe, na Malanje onde vivi até aos doze anos e onde deixei apenas dois nomes como rasto de presença.
Quantos amigos ou conhecidos entraram na minha casa? Os dedos de uma mão chegam para contar. Quantas vezes entrei eu na casa dessas pessoas? Talvez os dedos de ambas as mãos sobejem para o dizer.
Do Eurico Dias lembro-me dos longos passeios, a esmo, pelas ruas e vielas, atravessando de par em par a cidade, espraiando-nos até, como num jardim, pelo cemitério, indiferentes aos mortos, ele taciturno, eu a fazer as despesas da conversa. 
Da Isabel Santos, os bailes domésticos em que, sob a vigilância dos pais, um grupo precário de adolescentes a borbulhar, ia afluindo, cada um trazendo a sua parte para a merenda, entre croquetes e bebidas gaseificadas, que o mais um gira-discos fazia, cumprindo a sua função, cada um em busca do seu possível par, ansiando o dançar agarrados o suficiente e suficientemente separados, a mão a travar o ímpeto do corpo, e depois o regresso a casa, a horas certas, os sentimentos confundidos pelas sensações.
Lembro, enfim, o Luís de Miranda Rocha. Mais velho que nós. Pela sua mão aprendi a ler, soube o que era a cultura. Seguia-o até junto do edifício da Biblioteca, onde parava, vinda de Lisboa, a camioneta da carreira, a que trazia os jornais de Lisboa. Com as poucas moedas que me tilintavam no bolso, porque nunca soube o que era uma mesada ou uma semanada, ou regularidades que tais, atrevia-me a comprar o Diário de Lisboa, uma vez por outra o República, aquele para ler nas entrelinhas, este por militância na sua breve prosa.
Um dia soube que tinha morrido. Prestei-lhe aqui a possível expressão do que lhe devo, tanto quanto as palavras o conseguem. Como no seu poema, «as palavras não existem para além da nossa voz». A sua companhia ensinou-me a estar só. Escreveu um comovido livro de poemas chamado O Corpo e o Muro. Dedicou-o a «M», um segredo do seu coração.
Lembro. Estendo a mão ao que poderia ter sido e na presença do vazio, lanço-a a tudo quanto puder ser. Viverei a vida por viver, vivendo-a!

Abravezes


Na altura não sabia que, em 1932, ali tinha vivido clandestinamente o escritor Aquilino Ribeiro. A Igreja estava nesses anos, em que ali vivi, tal qual esta fotografia de 1929. Junto a ela uma frondosa árvore, um banco de jardim e, nele, solitário, de porte digno, frequentemente um velho militar reformado, tomando da sombra o fresco. Eu era infantil demais para dele saber o nome. Lembro sim da tasca do «Zé da Bucha» e das casas que o Manuel da Adega construía e ia vendendo, como aquela em que nós vivíamos, quase ao lado do cemitério. Já lá não está um palheiro onde por esmola vivia um mendigo tuberculoso, cuja tosse se ouvia como facadas no coração do nosso bem estar, desfazendo-lhe os pulmões e a minha consciência moral de menino "africanista". Mais abaixo o supermercado "Spar", da "Cilinha", a que passeava um cão cujas patas traseiras haviam sido esmagadas por um atropelamento e que ela empunhava, conduzindo-o, para a volta necessária, como a um cortador de relva. E o sanatório, mais adiante, estrada por onde passeava a minha Mãe e o seu filho, o único homem, garoto ainda, que havia naquela solitária casa, aguardando o regresso do meu pai, sabendo dele pelo correio aéreo, cartas e envelopes escritos em papel de seda para, mais leve, não encarecerem o custo postal. E antes dela, a estrada romana, incerta, bordejando silvas cujas amoras tinham de bom a delícia do sabor e de mau os desarranjos que causavam, intestinais.
Se tenho saudades? Não tenho. Talvez tenha sido aí que me nasceu na alma o sentimento da melancolia e da não pertença. Um dia um telegrama chegou: «seu marido muito mal». Vinha de África. O menino africanista iria aprender a fazer-se homem. Em Lisboa, terra de asilo, onde fiquei.

Quare?

Eu era apenas um miúdo, imaturo, arrancado a Angola onde vivera em clausura e quase sem amigos, excepção tristonha àquele mundo de porta aberta que caracterizava a vivência dos trópicos. Fora parar a Viseu porque era dali a família do meu pai, que eu não conhecia e que ele mal reconhecia, tendo emigrado para África aos vinte anos e regressado à Metrópole quarenta anos depois. Além disso vínhamos, a minha mãe e eu, com fama de "africanistas", forma de de supor no meio que seríamos endinheirados através da exploração negreira. Perdido numa cidade que não era minha, feito cavaleiro andante de sua mãe, um rapazinho de dezasseis anos chegava enfim ao Liceu Nacional de Viseu, depois da peregrinação pelo Colégio de Santo Agostinho.
Que sabia eu do mundo que por ali habitava, discreto, subterrâneo, e mesmo o da cultura oficial? Alguém me conseguiu fazer compreender a importância do Eugénio Aresta e do Augusto Saraiva na Filosofia? Di Simões Gomes na Cultura Clássica? Não tinha quem, com uma única excepção chamada Luís de Miranda Rocha. Falarei dele um dia e das saudades que me roem a alma incompleta pela sua prematura morte.
Pressenti, sim, naquele professor de Literatura, alguém diferente. Talvez porque mais novo do que o habitual, sobretudo porque mais arrojado do que se esperava. 
Arriscou dizer-nos, sem que eu entendesse bem, que não estava autorizado  pelo Reitor a recomendar a História da Literatura do Óscar Lopes e do António José Saraiva mas que era a melhor a que existia. Dava aulas como quem conversa com amigos. Arriscou, sobretudo, pegar naqueles adolescentes tão diferenciados como éramos e fazer-nos ler, mesmo os mais obtusos. Pela sua mão descobri o que era a Biblioteca do Liceu. Por causa dele passei a não perder a paragem da carrinha da Fundação Gulbenkian quando, ela como Biblioteca Itinerante, me trazia aquele mundo por haver.
Um dia, numa aula, surpreendi-o descobrindo que havia mais remos do que remadores num dos autos da barca de Gil Vicente, não sei dali retirando que peregrina conclusão. Líamos a peça representando-a. 
No final foi ele que me surpreendeu a mim. Aos poucos vim a saber o seu genial valor, a sua bondade, o seu empenho. Tarde demais, porém. 
Morreu jovem. Hoje olho para mim e para esse tempo perdido e para aquilo de que não fui capaz e sinto uma vergonha imensa por já não ser possível bastar-me com o arrependimento de uma culpa de que nem tenho com quem repartir os remorsos. 
Esta noite o Eduardo Pinto trouxe-me uma grata memória na forma de um blog que o refere e uma fotografia. Está aqui. Olho para a imagem e para a clareira que significa a minha ausência quanto a tudo isso. Na altura eu era apenas um miúdo desterrado em Abravezes, sem eira nem beira, formando-me a esmo. Anos depois tudo isso pesa como uma acusação. O que faz de nós a inconsciência.
Alberto Osório Mateus, meu professor. Numa aula marcou-me como trabalho escrever uma carta como se fosse o Francisco Manuel de Melo. Teria de ter o estilo, o vocabulário e, não mais o esqueci, terminar com a sacramental fórmula: «Quare? [Porquê?]». 
Eis a pergunta da minha agonia esta noite, olhando para o tempo ido e para o tempo perdido: porquê? Porquê?

O Cónego Barreiros

A fotografia tem no verso uma legenda: «Ao primo José Barreiros Pina do Amaral, como prova de estima e lembrança da sua passagem pelo meu Colégio. Colégio da Via Sacra 14-7-52 Pe. António Barreiros».
O destinatário foi o meu pai, que usava o nome, como se à espanhola, com o designativo materno no final antecedido pelo do lado paterno. 
Órfão, o Cónego Barreiros deu-lhe estudos gratuitos no que foi uma referência estudantil em Viseu: o Seminário-Colégio da Via Sacra. Ali conviveu com António de Oliveira Salazar, então prefeito. Com a diferença: este dedicava-se, férreo, ao estudo, chegando a ponto de em pleno Inverno, depois de uma jornada de trabalho, descalçar-se para que os pés numa bacia de água gelada o impedissem de adormecer; o meu pai queria namorar e vida solta. Partiria para São Tomé, dali para Cabinda, enfim em Malanje, onde eu nasci em 1949. Quando a foto chegou até nós eu teria três anos. Fui hoje ao seu encontro.

O espírito do lugar

Estudei aqui, vindo do "Colégio do Terêncio", meu padrinho, como contei. Era um seminário e também um colégio. Estudavam no colégio os filhos dos mais afortunados e eu tive a oportunidade de naquela altura ser filho numa família que afortunara. Começaram do nada. E ficámos sem nada. No começo quando eu não existia minha mãe chegou a fazer ajour "para fora", porque o infortúnio abateu-se sobre a nossa casa. Mais tarde, comigo já na Faculdade, ter-se-ia que agarrar a modestíssimos empregos para poder haver comida em casa. Pelo meio tivemos do mundo as coisas boas que o mundo tem. 
Talvez por isso tenha ficado como marca o misticismo destes missionários, tão longe do execrável cura que mais tarde conheceria e que da Igreja afugenta porque da Igreja é o mau exemplo, a fraternidade destes missionários, a austeridade moral destes missionários. Um dia surgi nas aulas de pulseira de ouro e anel. Prendas de avó. E fio ao pescoço. Olhando-me com ar severo, o Padre Ferreira lançou-me na cara: «vens assim para apoucar os que não têm?».
Nunca mais esqueci. Nunca mais uma peça de ouro. Agora a aliança apenas, símbolo da dedicação.
Se o mundo se divide, de um lado os materialistas, eu estou além. Mesmo dos materialistas históricos e dos dialécticos. Devo-o a este começo, a esta lição, a este lugar.

O ver e o olhar

O chapéu é o forro de um chapéu, a gola alçada a de um pijama de flanela. Não consigo reconstituir a idade e talvez nem me reconheça no interior. Talvez o modo de ver pelo modo de olhar.
Fui encontrá-la à fotografia esta noite num álbum que trouxe como se tentasse encontrar desse tempo um vestígio.
É essa a nossa biografia essencial, o pequeno instante que define sem ter de dizer. O olhar sem o que se vê. Como se num aborrecimento feito nostalgia. Ou uma tristeza que ficou mais do que as alegrias e o tempo do riso.

A ânsia de colo

Tento por vezes lembrar-me da mais remota memória que ainda conservo. Mas já não me entendo comigo quanto a ser uma verdadeira lembrança ou um resíduo do que os outros contaram que sucedeu. 
Não me recordo, por exemplo, de ter andado ao colo. Uma falha destas explica muita coisa na vida de um homem, sobretudo os trágicos insucessos na busca de carinho. 
No entanto, essa verdade esquecida existiu como realidade que só uma fotografia hoje conserva. Esta. 
Dizem-me que por essa altura um surto de paralisia infantil, entre matar e estropiar uma série de crianças, lançou o pânico nas famílias do local onde nasci. Escapei talvez porque tivesse um mundo inteiro para calcorrear. E sobretudo para que a vida se encarregasse de me pôr à prova quanto a ser impossível inverter o que aqui ficou como circunstância: seres tu filho, a encontrares na inocência do teu ser, um regaço que dê, enfim, colo a tua mãe, recebendo-a agora tu, regressada ela à primeira infância, com todos os incómodos, os da impossibilidade de falar, às necessidades incontroladas.
É isto o que dói nos álbuns de amarelecidas fotografias quando, acusadoras no seu mutismo nos perguntam: darás tu o que te deram tal qual o recebeste, fecharás com honra e sem remorso o ciclo da vida de quem te deu vida, sem relutância, sem olhar a horas, a conveniências, a comodidades, a repugnâncias? 
Darás tu colo a quem te deu colo?

O soldado cadete n.º 153053/70

Rememorando o que foi a infância e a juventude, creio que fui educado militarmente. Em nome da regra segundo a qual «vida de cama, vida de lama», a alvorada lá em casa era pelas sete, quando não era antes. A ideia de ficar a preguiçar durante a manhã, salvo estando doente - e as doenças só existiam quando a febre ultrapassava os 39º - era quase pecaminosa. À noite, depois do recolher, a luz acendia-se às escondidas.
O culto do dever, as horas certas para se estar à mesa, o ter o quarto limpo como uma caserna, marcavam o tom. E, claro, o viver sob inspecção permanente, sob a ameaça da repreensão disciplinar. 
De tal forma assim foi que quando, com o surgir da puberdade ele se soltou, o espírito de liberdade, o território que eu tinha para lhe oferecer foi o da vida solitária. Muito poucos eram os amigos e a irem a minha casa praticamente nenhum. Aprendi a viver na rua. Ao regressar ao aquartelamento fardava-me de solidão.
Um dia o serviço militar obrigatório chamou-me. Fui recenseado e deram-me um número, o 153053/70. Apurado para «todo e qualquer serviço militar».
Esperaram para eu terminar o curso e ainda para fazer o estágio de advocacia, como se a tropa precisasse do meu ser jurídico. Acabaria, porém, em Armas Pesadas de Infantaria, apesar do desconcerto da minha magreza.
Quando entrei na Porta de Armas já tinha tido o meu tempo doméstico de vida castrense.
A foto ilustra o momento grave em que numa imensa fila, com o número ao pescoço, quais presidiários, éramos fotografados em manada. Depois recortavam um a um, daqueles corpos, o que individualizava o mancebo, a carne para canhão. Foi no Quartel em Mafra, era Janeiro e fazia frio. Foi ali que aprendi a primeira regra, a do «Vossa Senhoria, dá licença, meu tenente?». Ainda hoje ficou como lição de moral: manda quem sabe obedecer. Mesmo na rebeldia. Obedecemos a um dever, o da consciência moral, como quem jura bandeira.

O tentador precipício

Hoje foi arrasado, como muitas coisas se arrasam e varrem dos locais. Perduram na memória, enquanto ela se não confunde, em álbuns amarelecidos enquanto os herdeiros os não jogam no lixo. 
Foi neste Colégio que me matricularam, para fazer o quarto o quinto ano do Liceu. Vindo de Angola, de um estabelecimento privado de ensino, não sei em nome de que lei só poderia entrar no ensino oficial ao iniciar o 3.º ciclo. 
A Avenida onde se situava chamava-se 28 de Maio, era e deveria ter sido sempre Alberto Sampaio, mas para mim era e foi a Avenida do Caroço por causa das cerejeiras que os antigos ainda recordavam plantadas na faixa que dividia a rua ao meio. 
O prédio do Santo Agostinho tinha sido um hotel, o Hotel Portugal.Mas quando ali cheguei parecia-me imemorialmente o que era. É assim quando se é novo, tudo nos parece ter sido sempre o que é, tudo precisa de deixar de ser como está.
A fotografia foi tirada do lugar onde do lado direito desembocava uma íngreme rampa, ao topo da qual era a casa da família Santos Costa, que havia sido ministro da Guerra num Governo de Salazar.
Foi escorregando por ela, em dias de gelo, que, imitando outros, sentado num caixote de papelão a desfazer-se, em improvisado kart, desemboquei, em louca correria, a deslizar, tremendo de frio e de emoção, mesmo a meio da Avenida, onde me esperava não o aplauso pela ousadia tremenda, mas um "chapadão" castigador do Doutor Oliveira, professor de Geografia e disciplinador daquela chusma de "corrécios" e outros que disso se aproximavam em mau comportamento, que éramos, afinal, a maioria de nós. 
Claro que a bofetada tentava, a seu modo, ensinar-me a defender-me de mim próprio. Talvez devesse ter levado mais umas quantas, não naquela altura, mas ao longo de uma vida que ali se iniciava, ao passar inconsciente dos treze para os catorze anos. Então, pareceu-me uma injustiça invejosa do mundo dos adultos para aquele heroísmo infantil.

O casarão

O Colégio pertencia ao meu padrinho, o Dr. Terêncio, de quem já falei aqui. Era um imenso casarão. Ou talvez nem tanto, mas a memória infantil torna sempre maiores os espaços, mais altos os tectos, mais funda a distância. 
Curioso o que recordo desse mundo infantil. Não consigo lembrar um nome sequer, salvo o da professora por causa da qual os meus pais me tiraram dali. Como eu não conseguia ler números com muitos zeros, prenúncio do que a vida me reservaria em matéria de incompreensão ante a riqueza económica, lembrou-se de um método em cuja brutalidade confiava: o ensinar-me batendo. 
Um dia apareci em casa com o ombro negro de sangue pisado pelas reguadas com as quais se tentara que eu soubesse distinguir os milhares das dezenas de milhares, as centenas de milhares, os milhões e por aí em diante.
A partir daí inscreveram-me no Colégio de São José, que também era Seminário. Um outro mundo abria-se.
Esqueci quase tudo desse mundo primitivo, excepto o mapa de geografia e os intervalos das aulas apenas pelos gelados de leite de que uma vizinha em frente fazia economia doméstica, sorvetes feitos como cubos nas cuvettes do congelador, um palito como base de sustentação. Custariam pouco mais que «uma quinhenta». Eram naquela altura o paraíso na terra no intervalo das tentativas ferozes de suporem que eu tinha inteligência, à pancada.
Encontrei-a esta noite aqui, esbatida, a memória da minha escola primária, o Colégio de Veríssimo Sarmento e com ela o casarão de uma infância quase sem amigos o nascer de uma reclusão interior.

Gogomobile

A pequena criatura sou eu. A sombra que sobre o automóvel se projecta, a do meu pai, orgulhoso do seu menino, a máquina fotográfica, em baquelite, de que só me recordo as minúsculas fotografias que tirava. A viatura um Gogomobile, que só mais tarde viria a saber ser da fábrica BMW. Recordo sim que tinha as mudanças eléctricas no tabelier.
A matrícula começava por "A", por ser emitida em Angola.
Fora uma oferta do meu pai a minha mãe. Naquele tempo a vida permitia-lhe isso. Uns anos depois o tecto cair-nos-ia em cima. Ficou desse mundo a pálida fotografia. E memórias tristes por causa desse oferta. Não interessam para o que aqui escrevo. 
A verdade de uma vida é o que dela importa, mescla de memória e de esquecimento. Talvez um dia se escreva da História do Mundo Omitido, como a do meu pequeno mundo, a deste pequeno carro.

Os "assimilados"

Chegou a Malanje, tal como nesta foto se mostra quando chegou a Luanda. Era ministro do Ultramar de Oliveira Salazar. Este, sabê-lo-ia mais tarde quando os estudos me permitiram entender o que nem pressentia, tinha-o ido buscar para o Governo do Estado Novo aos sectores oposicionistas. 
A sua viagem a Angola traduzia um esforço de autonomia controlada, o fim do "Estatuto dos Indígenas", dos "assimilados", dos "brancos de segunda". Adriano Moreira era o homem que servia.
As colónias transformavam-se apressadamente em "províncias ultramarinas", à solução dos massacres, como os da Baixa de Cassange, sucedia uma política "psico-social". Tarde demais.
Na altura eu nada entendia no que dizia respeito a este repintar das fachadas do sistema. Lembro-me sim quando o jovem governante, num igual aceno, extasiado ante a espontânea manifestação local, não se apercebia, ou tentava não se aperceber, de que nas filas de trás do ministerial cortejo seguiam camiões apinhados de nativos, num deles a berrarem «Benfica! Benfica», como se enganados nos vivas, e em outra um "cipaio" empunhando as senhas do almoço à borla que restabeleceria a energia gasta em tanta grita!