A Kitanda


Era, na reminiscência da minha infância, aqui a "Kitanda", nome indígena para mercado. Atravessando-a, chegava-se à Rua Vasco da Gama, onde nasci, onde vivi até que a guerra começou ali tão perto na Baixa de Cassanje. Não sei de quando data esta fotografia. Encontrei-a hoje. Mal reconheço o que vejo ante o que rememoro como era. 
Nunca voltes ao lugar onde foste feliz. Mesmo que não tenhas sido.

Uma folha e uma flor



Chego hoje, dia 25 de Março, aos 67 anos de idade. Nestas datas pensa-se no que se fez, no que se poderia ter feito, em tudo quanto a vida fez de nós. Poderia ser assim também. Mais importantes que certos dias são, porém, todos e cada um dos dias. 
Ida a ânsia de querermos reiteradamente ter vinte anos, essa angústia irrequieta de fingida juventude eterna a refazer-se, fica a tranquilidade do dia presente, a felicidade encontrada de ter com quem o partilhar. 
Houve anos em que, pelo raiar do dia, telefonava, a voz a alegrar-se, parabéns a quem era pequenino, o seu eterno menino. Hoje é, naquilo que me deu o ser, um ponto na memória ferida. A vida que recebi dei-a a três filhos. Encerrou-se assim o círculo de giz da renovação.
Estou feliz em casa e em paz comigo. Não me aflige o tempo que falta nem o espaço por habitar.
Esta noite, sendo duas e vinte da madrugada, cai uma folha na árvore nocturna do calendário, nasce uma flor no jardim da aurora que é viver.

Natal a todos, feliz Natal



Há um momento em que foram tantas as variantes de Natal que nos foram dadas viver que já nem sabemos qual a delas a mais sentida, a mais nostálgica, a mais fingida, a mais dorida, a mais em paz connosco e com o mundo pacificados. 
Além disso, há o mundo dos outros, aqueles que nem todos sentem, desde os que se profissionalmente se alegram para nos servir, aos que têm estampada no rosto a solidão de ninguém os ter procurado, vendedores do que sobejará, esperançadas criaturas para um companhia que não terão.
Tudo isso por vezes dói, ao pararmos e pensarmos nisso, e com a idade aumentam os que reservam desta época o ser o tempo das crianças, figuração cristã de um menino nascido de ventre pobre e de amor que nem unitivo foi.
Por outro lado, há em muitos o saber resistir, o encontrar em si a força generosa da dádiva, o tempo amável do sorriso, mesmo quando tudo em redor confina, a presença infrequente tornada necessária, o orçamento esgotado em inutilidades ornadas a laçarote, o esgotamento do próprio físico, a alma cansada, a cumprir o dever de obsequiar. 
Tentei lembrar-me hoje da mais antiga recordação de Natal. Terão estado connosco, em nossa casa, nessa hoje distante Malanje, os meus avós maternos? Não ficou na memória nada que o retenha. Resta, porém, desse anos de 1949, esta fotografia, ao mundo sorrisos, a inocente alegria ante um carrinho de plástico, quando tão pouco fazia tanto!
Natal a todos, feliz Natal.

Ecos da Colónia: meu avô Leonel


Gratidão a Filomena Bandeira, investigadora, que, nos trabalhos para a sua tese, descobriu as pegadas no meu Avô, Leonel Rebelo da Silva, pai de minha Mãe. Serralheiro mecânico, instruído com o Curso Industrial foi um auto-didacta.
Terminaria os seus dias em Angola, na Fazenda do Quissol, depois de ter trabalhado na Cotonang, em Malanje.
Em 1930 estava, porém, como Mestre de Mecânica na Colónia Correcional de Vila Fernando,  no Alentejo, destinada à ressocialização de menores [ver sobre ela, aqui]. Nesse ano escreveria para o jornal do estabelecimento, o "Ecos da Colónia", este artigo, de elogio à mecânica e à electricidade e ao empenhamento dos «rapazes» por estes sectores da técnica. 
Pressente-se o que seria o empenhamento que levou até ao fim e que passou ao seu único filho rapaz, que registou como Leonel também.

A ânsia de Absoluto



Há um tempo em que o tempo começa a escassear e em que pela primeira vez se nota que o dia tem apenas vinte e quatro horas e que a vida individual não é eterna e se repara que a força anímica, mesmo quando renovada pela esperança, já não tem aquela resistência com que se enfrentaram tantos embates. 
Mesmo para os que tentam sobreviver renascendo, há o limite do tempo e o confinamento do espaço.
Depois há aquelas opções que se tomam e que nos vinculam a uma vida, as decisões que só aparentemente foram livres porque, por causa delas, se tolheu a liberdade futura.
Ter-se escolhido uma profissão desgastante, física, mental e afectivamente, que nos consome horas em que o repouso já se exigia ou que poderiam ser aplicadas à cultura ou à recreação. Ter-se alocado ao longo da vida recursos de energia e meios até financeiros a situações que desmoronaram, amputando parte do edifício que se poderia ter construído. Terem-se assumido encargos para com pessoas, projectos, ideias, princípios morais, que obrigam a dar e tornar a dar, mesmo quando sem retorno, ainda que sem gratidão, até face ao insucesso do resultado razoável.
A somar a isto há o desejo de se ser feliz, num mundo envenenado de tragédias, rancores, invejas, mesquinhez acumulada.
Pior de tudo isto é ter-se a consciência dos limites, saber quão erróneo e vil se foi neste mundo, incompleto, irrealizado, aquém do sonho e ter de edificar com o pouco que havia e o menos ainda que sobrou.
Olhei hoje para os blogs em que me tenho desdobrado e que constam da lateral deste mesmo que, aos poucos, se tornou biográfico, talvez imprudentemente pessoal, que não aproveito para a hagiografia do meu ser nem para a diabolização do mundo que me foi dado viver. Terei seguramente de dar conta que há muito ao abandono.
Juntei, um a um, os livros de Irene Lisboa dediquei-lhe um espaço, sem que me tenha sido possível voltar a ele, as obras meio-lidas, eu, afinal, mais um de tantos que a esqueceram, tristeza de indiferença ante uma escrita triste. O mesmo se passou, menos expressivamente talvez mas com a mesma natureza, com a obra de Maria Ondina Braga, de quem guardo inúmeras aparas do que julguei poder vir a ser um livro sobre a sua biografia interior e porventura uma edição das suas obras completas. Pior ainda o que ocorreu com Dalila Lello Pereira da Costa, relativamente a cuja esplendorosa escrita extática, correspondeu um começo de reflexão que por ali ficou. E quanta possibilidade havia de ter prosseguido com Clarice Lispector e sua irmã Elisa, sobre cuja obra extractei mais do que citações, frases, por me ter detido com um detalhe, que relaxei, sobre o pensamento subjacente e a sensibilidade que ali se espraia, mesmo desde os tempos em que eram quase ignoradas como voltaram a sê-lo, Elisa então na totalidade.
Dir-se-à que a culpa é da dispersão que mandaria a prudência não tivesse esse modo plural de ser. Só que não haveria outra hipótese de eu ser outro. Nem há. 
Mas que fazer quando me doem esses astros mortos no ciberespaço, evidências da minha incapacidade até de manter promessas de continuidade?
Há, depois, a vertente cívica, parte determinante do que ditou a minha sorte, desde os tempos de juventude e que me levou a erráticos e errados caminhos, por vezes ambíguas opções, das quais pelo menos trago o único consolo, o de nunca me ter apropriado com vantagem ou benefício que daí decorresse. Mantive-a, confinada, num espaço chamado "A Revolta das Palavras», para que fosse o jornal de parede dessa ânsia transformadora do mundo que encontrei. Tenho hoje a convicção de que nada se alterou nem seria possível alterar pela opinião dispersa e marginalizada que por ali exprimo, sem partido ou grupo a que pertença de que seja voz ou opinião.
Poderia continuar, porque há os locais onde fica o que é a minha investigação intervalar sobre aquele ramo da História Contemporânea que é a guerra secreta, sobre a qual escrevi e tenciono escrever livros; e há onde o que se tornou profissão, o jurídico, tenta encontrar pretexto e modo de reflexão e informação sistematizada. E mais onde ficam notas de leitura, apontamentos de alfarrábio, até mesmo o meu empenhamento com a "filosofia portuguesa" e com os temas esotéricos. 
Tudo incerto, irregular, ao sabor das circunstâncias e dos humores.
Continuo Advogado, que é a minha profissão e relativamente à qual estou sujeito a ritos cruéis, de deveres e prazos e exigências de responsabilidade. Tornei-me editor na ânsia de ter um projecto livre com que contribua para a cultura pela edição de livros, mesmo quando mecenas desta arte de empobrecer e possa dar voz, que mal tenho dado, à minha própria voz. 
Pelo meio ficou a escrita, a dispersa e a organizada, a prometida, a de há tanto tempo incompleta, livros adiados, artigos que poderiam ter sido publicados.
Há um tempo em que a vida exige mais tempo.
Para quem não se guia pela agulha de marear do lucro ou do aplauso, mas pelo instinto e pressentimento, espécie de adivinhação de um mundo possível, torna-se mais difícil porque não há uma forma de encontrar a equação certa entre o que que foi e o que resta.
Hoje, Domingo, dia de reflexão, pergunto se não devo retirar-me da vida pública, onde não faço falta, manter-me na profissão, que se me torna necessária, e optar pelas grandes opções que possa satisfazer sem vergonha de atraso ou má consciência de incompletude; ou se, afinal, não deverei ser, tal como a vida é, isso mesmo, a errância e o acaso, irrompendo ao sabor da ocasião, do momento, da ilusão mesmo que seja. 
A ânsia de Absoluto gera o Fim da História, aprendi ontem à noite, num jantar amigo. Contente-se, pois, o Homem, com o relativo, fragmentário, possível mesmo quando apenas provável. E faça disso contentamento, seu e dos seus.



O meu menino


Tenho andado por aqui a escrever a esmo. Não são memórias porque tenho pudor e teria de omitir nem auto-biografia pois tenho o sentido do ridículo. São momentos, dispersos, desordenados no tempo, meus e dos meus. Aqui e além desenterro uma recordação, um velho papel, uma fotografia. E a propósito sigo em frente, contando o que me lembro e o que se me suscita. São lembranças e ficções que é assim que uma vida surge aos olhos dos outros mesmo quando contada pelo próprio.
Em muitas casas havia o livro de Samuel Maia, "O Meu Menino", «recomendado pelo Ministério da Educação Nacional» para os Cursos de Puericultura..
Pois ali estou eu, anotado nas folhas finais, com a cuidada caligrafia de meu pai. Nasci com 53 centímetros, pesando três quilos meio. No fim do primeiro mês já «distinguia os sons», reconhecia «o doce e o amargo». «Chora com lágrimas», sublinhou. Passei a dar gargalhadas ao quarto mês. Nessa altura já notavam: «Prefere estar sentado». 
Olhando hoje, com ternura de memória visitada, para tudo isto creio que está ali muito do que há de essencial na vida. Até quando, ao sexto mês, aquele meu pequeno eu «não engatinha».

A feliz e ansiosa angústia que é viver


Podem fazer-se balanços de vida em qualquer idade. Fazem-se por vezes quando surgem no devir do tempo números redondos, como cinquenta anos, pela ilusão de que se viveu metade do disponível mas pouquíssimos são os que chegam à centena de anos de sobrevivência.
Inicio esta madrugada sessenta e seis anos de vida. Não tenho nenhum balanço a fazer do tempo certo já vivido, sim um projecto para o incerto tempo que haverá para viver.
Quero ser feliz, felicidade que nasça do que me puder ainda oferecer de bom e daquilo que de melhor conseguir partilhar com todos os demais: a sensação de paz por haver quem encontre por mim razão para sorrir.
Quero, além disso, dar sentido à existência, unindo pontas soltas que foram ficando do que ensaiei sem terminar, quase me esgotando sempre com excertos apenas do que imaginei possível: o sentimento de completude por haver achado modo de me reconciliar, inteiro, com tudo quanto é e está e por onde me joguei em iniciativa e esperança.
Quero, enfim, preparar-me, com dignidade, para qualquer percalço que me tolha o passo, interrompendo-me ou suspendendo-me a possibilidade: a percepção da finitude e da precariedade, não me julgar mais do que um cruzamento de improváveis acasos em que a vida gerou vida para que a vida continuasse possível.
Poderia dizer que de mim ficaram três filhos: mas nunca um filho é a continuação de seus pais, sim um ser existente por si e em si. Somos a origem da sua existência não a continuação da mesma através deles.
Poderia julgar que as obras a que dei azo valem o esforço que custaram: mas houve sempre mais esforço do que resultado e o que valerem tais efeitos sejam outros a dizê-lo, a seu tempo, não eu porque ainda esgoto o remanescente tempo.
Assim, nada digo e nada julgo. Seguirei o caminho que tracei, mesmo que não seja pelas avenidas que são trajecto; todas as vezes que me perder, tentarei retomar o passo. Estou no caminho certo.
Lamento o sofrimento, a dor, a desilusão, aquilo em que me inutilizei. Mas o que é viver se não errar? Felicito as circunstâncias que me trouxeram o mal, tal como festejo as que me fizeram encontrar o bem. São a prova de que não fugi a entregar-me, mesmo sabendo o que era susceptível.
Inicio esta madrugada, afinal, com redobrado ânimo, a continuação do que me foi possível. Olho carinhosamente a vida, a feliz e ansiosa angústia que é viver. E sorrio, confiante e grato.

O tempo do esquecimento


Com a passagem do tempo e porque morreu tinha eu vinte anos, comecei a confundir o dia em que nasceu, 17, com o dia em nasceu minha Mãe, 7, ele em Janeiro ela em Outubro.
Durante toda uma vida dei como assente que tinha nascido em 1898 quando afinal nasceu em 1897.
Até hoje, julgando ser dia de aniversário, que os mortos comemoram-nos, mesmo que em silêncio, na nossa memória, afirmei que tinha nascido em Fundo de Vila quando, de facto, nasceu em Esmolfe.
Em Setembro de 1966 tirou este, que seria o seu último bilhete de identidade. Estava pobre, fisicamente arruinado, insolvente. Terminara com a profissão de solicitador o que não tem qualquer importância. 
Nessa precisa ocasião, com 17 anos, regressei à Metrópole, no "Niassa", com um bilhete de favor, na terceira classe (suplementar) por cima dos porões. Tínhamos ido a Malanje encontrá-lo, exausto, numa cama de hospital. Um telegrama chamara-nos «seu marido muito mal».
Matriculei-me então na Faculdade de Direito. Os colegas que fui encontrando não sonhavam a penúria, porque tornei o orgulho em fingimento. A todos os que conhecíamos de Angola voltámos as costas, envergonhados. Iniciou-se um novo ciclo nas nossas vidas.
Hoje pensei que era dia de o lembrar. Afinal chegou o tempo em que, por remorsos que tenha,  já me comecei a esquecer.
Chama-se José Barreiros Pina do Amaral. É meu Pai.